#Análise | A habilitação de crédito na Recuperação Judicial

A HABILITAÇÃO DE CRÉDITO NA RECUPERAÇÃO JUDICIAL: a faculdade do credor preterido entre a habilitação retardatária ou a execução individual

 

A sistemática dos processos de recuperação judicial de empresas no Brasil é regida pela Lei n.º 11.101/05 (“LREF”, Lei de Recuperação de Empresas e Falência), que estabelece as normas de processamento desses procedimentos.

Com o início da recuperação judicial, o credor depara-se com a questão da sujeição ou não dos créditos aos efeitos da recuperação judicial, pois é um dos requisitos da petição inicial que esta seja instruída com a relação nominal completa dos credores, sujeitos ou não à recuperação judicial, indicando-se a natureza do crédito e o seu valor atualizado, com a discriminação de sua origem e, ainda, o regime dos vencimentos (art. 51, inciso III, da LREF).

Para tal, o art. 49 da LREF presta-se a determinar quais os créditos estão sujeitos aos efeitos da recuperação judicial (créditos concursais) e quais não estão (créditos extraconcursais). Nesse sentido, são concursais e, portanto, sujeitos às condições do Plano de Recuperação Judicial todos aqueles créditos existentes na data do pedido, ainda que não vencidos.

Pode ocorrer, contudo, que na relação apresentada pelo devedor, haja equívoco nos lançamentos, seja quanto à classificação do crédito (concursal ou extraconcursal), quanto à sua origem ou quanto ao seu valor, por exemplo. Mas podem também ocorrer casos em que um determinado crédito nem sequer conste na relação de credores.

De modo a evitar que tais anomalias e equívocos se perpetuem, a LREF prevê um momento para a apuração dos créditos devidos, o qual é dividido em duas fases.

A primeira delas, extrajudicial, é deflagrada com a publicação do Edital mencionado no art. 52, §1º da LREF, a partir da qual os credores poderão, no prazo de 15 (quinze) dias – vale dizer, contados de forma corrida, conforme o art. 189, §1º, I da LREF, incluído pela Lei n.º 14.122/20 –, apresentar diretamente ao administrador judicial suas habilitações ou suas divergências quanto aos créditos lá relacionados, por isso diz-se extrajudicial.

Essa fase é de responsabilidade do Administrador Judicial, que promoverá a verificação dos créditos com base na já mencionada relação apresentada pelo devedor (art. 51, III, da LREF), nos livros contábeis e nos documentos comerciais e fiscais do devedor, além de eventuais documentos que lhe forem apresentados pelos credores. Munido dessas informações e após consolidá-las, o Administrador Judicial, que é auxiliar do juízo, fará publicar edital (art. 7º, §2º, da LREF) contendo a relação de credores no prazo máximo de 45 (quarenta e cinco) dias, contados do final do prazo para as habilitações e divergências extrajudiciais.

Publicado o referido edital, inicia-se a segunda fase, na qual os credores – além do comitê de credores, o próprio devedor, seus sócios ou, ainda, o Ministério Público – terão o prazo de 10 (dez) dias corridos para apresentar ao juiz impugnação contra a relação de credores. Nela, poderão apontar a ausência de qualquer crédito ou, ainda, se manifestar contra a legitimidade, importância ou classificação de crédito relacionado (art. 8º da LREF).

Essa fase, diferentemente da primeira, é judicial, e as impugnações serão autuadas em apartado e processadas na forma do arts. 13 a 15, da LREF, sendo concluídas através de sentença judicial.

Pode ocorrer, contudo, que o titular de determinado crédito que não tenha sido incluído na relação de credores ou nos editais publicados deixe de apresentar sua habilitação ao Administrador Judicial (art. 7º, §1º) ou, tampouco, apresente impugnação judicial (art. 8º).
Nesses casos, o Superior Tribunal de Justiça decidiu recentemente (REsp 1.851.692-RS, Informativo de Jurisprudência n.º 698 ) que o titular de crédito que for voluntariamente excluído da relação de credores, terá a prerrogativa de decidir entre habilitar o seu crédito ou promover a execução individual.

Poderá, assim, exercer a habilitação nas formas supracitadas, ou, ainda, caso passadas aquelas oportunidades, poderá fazê-lo de maneira retardatária, conforme preconiza o art. 10 da LREF. As habilitações retardatárias serão processadas da mesma maneira que as impugnações judiciais (arts. 13 a 15, da LREF) se apresentadas antes da homologação do quadro-geral de credores ou, caso este já esteja homologado, seguir-se-á o procedimento ordinário previsto no Código de Processo Civil, devendo o credor requerer posteriormente a retificação do quadro.

Caso o crédito não seja abrangido pelo acordo recuperacional, não se poderá falar em sua novação, uma vez que excluído dos efeitos do plano de recuperação. Por conseguinte, caso não haja habilitação, o credor poderá também optar por satisfazê-lo pelas vias ordinárias: execução individual ou cumprimento de sentença.

Contudo, conforme o entendimento do STJ, nestes casos, optando o credor preterido pela execução individual do seu crédito, deverá aguardar o encerramento da recuperação judicial (art. 63, da LREF), para só então dar início à execução ou ao cumprimento de sentença.

 

Conteúdo produzido por Lucas Kunzendorff Kuster.

2021-07-06T10:29:07-03:0029 de junho de 2021|Notícias, Publicações|

#Análise | A busca da efetividade da prestação jurisdicional pela virtualização dos processos

A percepção da sociedade brasileira de que o Poder Judiciário é um sistema lento, é constatado por diversas pesquisas¹ . Esse sentimento não vem de agora, ele tem se repetido ao longo dos anos. Pensando em acompanhar a percepção da população em relação ao Judiciário brasileiro, a FGV iniciou no ano de 2010 um levantamento estatístico de natureza qualitativa em 07 (sete) estados da federação.

O último relatório sobre o Índice de Confiança na Justiça Brasileira (ICJBrasil) foi no 1º semestre do ano de 2017, porém, desde então, em relação à morosidade na prestação jurisdicional, o brasileiro não mudou de opinião. O brasileiro continua encarando o Judiciário como uma instituição lenta e por vezes ineficiente na resolução de conflitos e na garantia de direitos dos cidadãos.

Por exemplo, no relatório da ICJBrasil, do 1º semestre do ano de 2017, 81% (oitenta e um por cento) dos 1.650 (um mil, seiscentos e cinquenta) entrevistados responderam que o Judiciário resolvia os casos de forma lenta ou muito lentamente² . Os dados apresentados no relatório corresponderam a coletas realizadas entre maio e junho do ano de 2017, nos estados do Amazonas, Bahia, Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo e Distrito Federal.

Desde a Emenda Constitucional nº 45, que inseriu no rol dos direitos e garantias fundamentais o princípio da razoável duração do processo e os meios que garantissem a celeridade de sua tramitação (artigo 5º, inciso LXXVII, da Constituição da República de 1988), muita coisa mudou na tentativa de se implantar um sistema de justiça mais ágil e eficiente. Por exemplo, com a criação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a transição do processo em meio físico para o meio virtual se tornou uma das principais políticas do órgão com vistas a mudar a lentidão da tramitação dos processos e a percepção da sociedade brasileira sobre a morosidade na prestação jurisdicional.

Após a instituição da Lei nº 11.419/2006, que possibilitou e disciplinou a informatização do processo judicial, o CNJ criou o Sistema Processo Judicial Eletrônico – PJe, que foi pensado para ser um sistema de processamento de informações e prática de atos processuais (Resolução nº 185/2013).

Sem dúvidas, um dos maiores desafios de modernização do sistema judicial seria implantar 100% (cem por cento) do processo virtual no Brasil, eis que os autos dos processos sempre foram em papel, ou seja, físicos. O passo inicial foi estabelecer que as novas ações deveriam ser distribuídas somente no formato virtual. Em um segundo momento, a atenção foi transferida para os processos que já estavam em tramitação no formato físico.

Recentemente, com o objetivo principal de eliminar o papel como meio de trâmite processual através de tecnologias que proporcionassem uma justiça mais célere, efetiva e acessível aos cidadãos, vários órgãos iniciaram a digitalização dos processos físicos. O Tribunal de Justiça mineiro (TJMG), por sua vez, apesar de ter dado os primeiros passos há pelo menos 3 (três) anos para redução do estoque processual e agilização da tramitação processual por meio da implantação efetiva dos processos virtuais, intensificou as suas ações no início do ano passado (2020), devido à situação peculiar de saúde pública gerada pela pandemia da COVID-19.

Em maio de 2020, o TJMG criou um grupo de trabalho, em caráter de urgência, para apresentar soluções para virtualização dos processos físicos que tramitam no Judiciário mineiro. De maio até o mês de outubro de 2020, as frentes de trabalho implantaram projetos piloto de virtualização dos processos físicos, até que no início de outubro de 2020, o TJMG publicou o Aviso nº 61/2020, que noticiou o Projeto Virtualizar, instituído pela Portaria Conjunta da Presidência nº 1.026/2020, e disciplinou os prazos para início e manutenção do plano de virtualização dos processos físicos (Portaria Conjunta da Presidência nº 1.025/2020).

Os processos físicos passaram a ter suas peças integralmente digitalizadas e posteriormente inseridas no sistema PJe. A partir de sua indexação no sistema eletrônico, a tramitação e os prazos processuais passariam a ocorrer de forma virtual. A expectativa no mês de julho de 2020 era que os mais de 3.500.000 (três milhões e quinhentos mil) processos migrassem para o sistema eletrônico³. Somente em Belo Horizonte, o TJMG instituiu que apenas os processos das Varas Regionais do Barreiro e, depois, os processos físicos das Varas de Família da capital mineira seriam virtualizados. Posteriormente, a ideia foi expandir para os demais processos cíveis e, por fim, os criminais.

Com a Portaria Conjunta da Presidência nº 1.026/2020, o TJMG permitiu que os advogados dessem carga em seus processos físicos e procedessem à digitalização de todas as peças, para posterior indexação no sistema eletrônico. Além disso, parcerias foram firmadas na expectativa de ter os grandes órgãos mineiros como auxiliares da virtualização, foram eles: o Ministério Público, a OAB, a Defensoria Pública, a Advocacia- Geral do Estado, a Febraban, entre outros.

De fato, a responsabilidade pela atividade de virtualização é do Poder Judiciário, porém, o ritmo poderia ser intensificado com a ajuda das partes interessadas dos processos. Em Belo Horizonte, de acordo com notícia veiculada pelo TJMG em seu site, somente em agosto de 2020, foram digitalizados 4.230 (quatro mil, duzentos e trinta) processos das Varas de Família. A expectativa da atual gestão do TJMG é de que até o final do ano de 2022, 100% dos processos físicos sejam virtuais. Isso, sem sombra de dúvidas, será um passo importante para a obtenção de uma justiça célere, moderna e que poderia aumentar os índices de confiança dos cidadãos para com o Judiciário.

Em outubro de 2020, o TJMG divulgou que 100.000 (cem mil) processos físicos de Minas Gerais estariam virtuais . Em dezembro de 2020, o número saltou para 311.171 (trezentos onze mil, cento setenta e um) processos , com 169.850 (cento sessenta nove mil, oitocentos e cinquenta) indexados ao PJe . Em veiculação mais recente, seriam cerca de 500.000 (quinhentos mil) processos virtualizados . Ou seja, em cerca de 12 (doze) meses desde que as ações foram intensificadas para virtualização dos processos físicos, o TJMG digitalizou pouco mais de 14% (quatorze por cento) do total dos processos físicos.

Sabe-se que as ações inerentes a virtualização dos processos físicos não são simples, porém, no ritmo que estamos, dificilmente a atual gestão do TJMG entregará virtualizados 100% (cem por cento) dos processos físicos até o final de sua gestão, em dezembro de 2022.

É compreensível os esforços do Judiciário na busca da celeridade na tramitação dos processos pelo meio virtual, ainda mais pela quantidade de demandas em curso. Acontece que o número de processos totalmente eletrônicos ainda é muito baixo se comparado ao total de cerca de 3.500.000 (três milhões e quinhentos mil) processos, então, faz-se necessário uma ação mais intensa do órgão ou, ainda, um olhar mais diversificado e que alcance outras medidas que causem verdadeiro impacto positivo na resolução dos conflitos e na garantia de direitos dos cidadãos, e que esse resultado seja breve e não voltado para um futuro distante.

O jurisdicionado tem pressa que seu conflito seja resolvido e ele merece isso!

 

Conteúdo produzido por Lívia Ribeiro Alves dos Santos. 

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IPEA. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. O Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS). Brasília: IPEA, 2011.
FGV Direito SP. Relatórios ICJBrasil, São Paulo: FGV Direito SP, 2010 a 2017. Disponível em: http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/handle/10438/6618. Acesso em 31/05/2021.
FGV Direito SP. Relatório ICJBrasil, 1º semestre/2017. São Paulo: FGV Direito SP, 2017. Disponível em: http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/bitstream/handle/10438/19034/Relatorio-ICJBrasil_1_sem_2017.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em 31/05/2021. TJMG. Processos físicos do TJMG com dias contados. Publicado em 03/08/2020. Disponibilizado em: https://www.tjmg.jus.br/portal-tjmg/noticias/processos-fisicos-do-tjmg-com-dias-contados.htm#.YLTylahKjIU. Acesso em 31/05/2021. TJMG. TJMG e instituições selam parceria histórica para virtualizar processos. Publicação em 04/08/2020. Disponível em: https://www.tjmg.jus.br/portal-tjmg/noticias/tjmg-e-instituicoes-selam-parceria-para-virtualizar-processos.htm#.YLT2KKhKjIU. Acesso em 31/05/2021.
TJMG. TJMG supera mais de 100 mil processos físicos virtualizados. Publicação em 29/10/2020. Disponível em: https://www.tjmg.jus.br/portal-tjmg/noticias/tjmg-supera-mais-de-cem-mil-processos-fisicos-virtualizados.htm#.YLT6LKhKjIU. Acesso em 31/05/2021.
TJMG. Digitalização e virtualização. Publicado em 03/12/2020. Disponível em: https://www.tjmg.jus.br/portal-tjmg/hotsites/relatorio-de-gestao-2020/digitalizacao-e-virtualizacao.htm#.YLT7o6hKjIU. Acesso em: 31/05/2021.
TJMG. TJMG virtualiza mais de 310 mil processos físicos. Publicado em 08/01/2021. Disponível em: https://www.tjmg.jus.br/portal-tjmg/noticias/tjmg-supera-mais-de-310-mil-processos-fisicos-virtualizados.htm#.YLT8k6hKjIU. Acesso em 31/05/2021.
TJMG. Fórum Lafayette amplia virtualização de processos. Publicado em 22/04/2021. Disponível em: https://www.tjmg.jus.br/portal-tjmg/noticias/forum-lafayette-amplia-virtualizacao-de-processos.htm#.YLT-ZqhKjIV. Acesso em: 31/05/2021.

2021-07-06T14:02:14-03:0017 de junho de 2021|Notícias, Publicações|